Futebol no Planeta

Nice, o clube dos mortos vivos

Um dizia mal dos clubes, discutia com treinadores, não se esforçava nos treinos. Outro tacou fogo na casa, tinha milhares de euros em multas de estacionamento e, uma vez, deixou Mourinho esperando para ir ver Fórmula 1. Ben Harfa e Mario Balotelli têm tanto talento quanto problemas. Ou tinham, até ao dia em que chegaram a um clube do sul de França e renasceram.

Vamos jogar o jogo das semelhanças com duas histórias.

A primeira é a de um menino que nasceu em Clamart, um bairro pequeno, ainda mais do que Châtenay-Malabry, uma vila nos arredores de Paris. É um lugar mal visto, onde ninguém que vive fora dele quer estar dentro. Nasceu de pais tunisianos, tinha drogas, ladrões e uma vida ruim, não se envolveu em tudo porque nasceu com uma solução. Um pé esquerdo que gostava de futebol. Tinha, nessa parte do corpo, uma personalidade tão difícil quanto a do lugar onde cresceu. Era arrogante nas coisas que tentava fazer, convencido no trato com a bola, um garoto que não precisava falar mal com os outros garotos para parecer mau para eles. Porque os fintava, ultrapassava, minimizava e fazia-os parecer que eram horríveis, por não serem capazes de fazer o que ele fazia.

Tão bom era que o pé, que o tirou dos clubes das redondezas e abriu a porta de Clairefontaine. Foi viver, crescer e jogar pela melhor academia de futebol da França. Tornou-se adolescente, pirralho no feitio, inchado na ousadia dos meninos que vêm do bairro e aprendem a não virar a cara a nada. Arranjou problemas, até trocou socos com Abou Diaby, um grandalhão que acabaria no Arsenal. Mas ele não. Foi para o Lyon, saiu dos juniores com fama de craque e, aos poucos, foi jogando. Venceu quatro campeonatos, mas o tinha de bom tinha o mesmo de mau, porque discutia com os treinadores e, nos treinos, saia na pancada com jogadores. A última briga foi a gora dágua.

Ele já não é mais pobre, mas mostra-se mal agradecido. Diz que o Lyon é um clube sem classe e pequeno demais para ele, enquanto faltava aos treinos e falava com jornais que queria ir embora e já estaa falando com pessoas do Marselha. A transferência acontece e ele conquista mais uma liga. O driblador nato no campo é, fora dele, o trapalhão sem coordenação motora que não se controla. Há uma richa com Djibirl Cissé no treino, outra com M’bami no estádio, uma recusa em levantar-se do banco no meio de um jogo, para ir aquecer. Didier Deschamps se irrita e não quer mais disto. Por isso ele vai para o Newcastle, de novo falando mal do ex-clube nos jornais, mas ainda com a fama de prodígio.

Na primeira temporada tem azar. Todos os problemas atrelados ficam mais pesados quando ele se machuca. Mal joga na primeira temporada. Nas restantes, brilha como um candeeiro com uma lâmpada mal encaixada – tem os clarões de não marcar gols normais e inventar jogadas solitárias de gênio, mas apaga-se nas discussões com o treinador e nas acusações, vindas dos companheiros de equipe, de que não se esforça nem trabalha nos treinos. “Se for preciso, vou até ao Polo Norte para continuar a jogar”, confessa, quando se vê sem saída na encruzilhada de querer ir para um clube depois de a FIFA não o deixar, por já ter jogado por dois clubes (Hull City e Newcastle) na mesma temporada.

Esta é a história de Hatem Ben Arfa.

Número nove. Há aqui algo que se repetiu.

Número nove. Há aqui algo que se repetiu.

O segunda é a de uma criança que teve de aprender quem ele é. Filho de imigrantes ganeses na Itália. Nasceu perto de Palermo, no sul, mudou-se para Brescia, no norte. Os pais, pobres e sem meios, entregam-no a uma instituição. Lá ficou até um casal italiano o adotar. Cresceu se dividindo entre o casal adotivo durante a semana e as visita dos pais biológicos, aos sábados e domingos. Vai jogando bola, com jeito, não o suficiente para o Barcelona, que não o quer quando, aos 15 anos, o dispensou.

Mas tem capacidades de sobra para a Inter de Milão o querer. Estreia aos 16, marca gols, põe o país que lhe ensina o que é o racismo a perguntar quem é o menino negro que apareceu por ali de repente. Os problemas, contudo, explodem na segunda temporada no clube. Coincide com a chegada de José Mourinho, o português duro de feitio e sem paciência para lidar com ele, o rapaz que chega a descrever como “não treinável”. Porque diz que ele não se esforça, não treina como gente que tem mais 15 anos (como Luís Figo), não se controla fora de campo e não cumpre horários. “Contigo posso falar a qualquer dia da semana, mas a Fórmula 1 só vem a Itália uma vez por ano”, chegou a ouvir isso quando faltou a uma reunião para assistir a um treino dos de Fórmula 1.

Ele consegue piorar a relação com Mourinho, o clube e os torcedores quando, para um programa de televisão italiano, decidi vestir uma camisa do Milan, clube rival. É a gota d´água que Roberto Mancini, o homem que o lançara no Inter, pensou ter a esponja capaz de o secar. O treinador leva-o para o Manchester City, onde ele até ganha a Premier League e marca gols, mas evidencia como tudo nesta vida parece ser uma questão de tempo. É visto em discotecas bebendo e fumando, tem de chamar os bombeiros por colocar fogo em casa, chega a ter mais de 10 mil euros em multas de estacionamento. Admite que a vida fora de campo aborrece-o, confessa-se incapaz de ser o bom futebolista que nada faz nos tempos livres. O clube também o multa, muitas vezes. E ele ainda usa e mostra uma camisa, no jogo em que marca contra o United, maior rival: “Why always me?”.

 

O clube se irrita, decide emprestá-lo. O Milan, clube que ele torce desde criança, contrata-o e lá passa uns 18 meses com gols e exibições suficientes para se falar pouco do mal que ainda se porta fora do campo. Parece estar mais calmo. O Liverpool decide arriscar, compra-o, puxa-o de novo para Inglaterra — e de volta à má vida. Ele não joga nada de especial (a expressão é mesmo esta), marca poucos gols. Diz que a culpa é das lesões, que lhe tiram a forma e a confiança que nem outro empréstimo, ao Milan, lhe devolvem. O Liverpool não pode mais com ele e, no início desta temporada, decide oferecer sem custos o atacante que lhe custara mais de 40 milhões de euros.

Esta é a história de Mario Balotelli.

mario-balotelli-milan

Nós avisámos.

Porque Ben Arfa chegou lá na última temporada e apenas se falou em coisas boas. Fartou-se de jogar, marcar e driblar, escapulindo-se aos problemas e pintando de negro a vida dos outros, em vez de a dele próprio. O prodígio acordou tarde, mas os 18 gols em 37 jogos convenceram o Paris Saint-Germain a comprá-lo, neste verão. Foi o fruto caído das árvores em que o Nice decidiu colocá-lo, apostando num jogador em quem ninguém ousava arriscar. Como a coisa resultou bem uma vez, tentou ir atrás da segunda.

E neste verão chegou Mario Balotelli. Não se passaram nem um terço da temporada aina, mas o atacante tem-se mantido calado, calmo fora do campo e certeiro dentro dele. Já marcou quatro gols em três partidas, os dois últimos contra o AS Monaco de Leornado Jardim e Bernardo Silva, que perderam (4-0) o dérbi da Côte d’Azur. Parece estar concentrado apenas no futebol, não dá entrevistas e já não celebra gols sozinho ou com cara de poucos amigos.

O Nice parece estar a mudando o jogador, como mudou Ben Arfa.

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