Futebol no Planeta

Túnel do tempo – Inglaterra 3×6 Hungria 1953

Data: 25 de novembro de 1953

O que estava em jogo: a manutenção da invencibilidade jogando contra equipes não britânicas em casa (para os ingleses) e uma vitória épica no maior templo do futebol mundial (para os húngaros).

Local: Estádio de Wembley, Londres, Inglaterra.

Juiz: Leo Horn (HOL)

Público: 100.000 pessoas

Os Times:

Inglaterra: Gil Merrick; Alf Ramsey e Bill Eckersley; Billy Wright, Harry Johnston e Jimmy Dickinson; Stanley Matthews, Ernie Taylor, Stan Mortensen, Jackie Sewell e George Robb. Técnico: Walter Winterbottom.

Hungria: Gyula Grosics (Sándor Gellér); Jeno Buzánski, Gyula Lóránt e Mihály Lantos; József Bozsik e József Zakarías; László Budai, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Técnico: Gusztáv Sebes.

Placar: Inglaterra 3×6 Hungria (Gols: Hidegkuti-HUN, aos 1´, Sewell-ING, aos 13´, Hidegkuti-HUN, aos 20´, Puskás-HUN, aos 24´e 27´, e Mortensen-ING, aos 38´do 1º T; Bozsik-HUN, aos 5´, Hidegkuti-HUN, aos 8´, e Ramsey-ING, aos 12´do 2º T).

“O amistoso do Século: o baile magiar em Wembley”

No século passado, se existisse uma grande seleção que conquistasse títulos e fizesse história, os ingleses faziam questão de chamá-la para uma partida amistosa no imponente estádio de Wembley para um tira-teima. Lá, a tal grande seleção perdia o jogo e os ingleses continuavam com a soberba de “melhores do mundo”, “inventores e imbatíveis do futebol mundial” e por aí vai. Isso até chegar o dia 25 de novembro de 1953. Naquele ano, os ingleses fizeram um convite para uma tal seleção húngara que encantava a todos com um futebol revolucionário e envolvente que havia tido seu grande momento com o ouro olímpico em 1952. Para a Inglaterra, aquilo não era nada. Era preciso passar pelo teste definitivo em Wembley para ver se os magiares eram mesmo bons. No dia da partida, 100 mil pessoas lotaram o santuário da bola para assistir mais uma vitória inglesa, como previa a maioria. Porém, em campo, o que todos viram foi um baile de jogadores altamente técnicos e totalmente a frente de seus adversários, de seu tempo e da própria e velha Inglaterra. A Hungria de Puskás, Kocsis, Budai, Czibor e Hidegkuti aplicou sonoros 6 a 3 nos “senhores do futebol” e não só venceu o mais importante amistoso de todos os tempos como estabeleceu feitos notáveis: ser a primeira seleção fora da Grã-Bretanha a vencer a Inglaterra em Wembley, mostrar a todos um novo e diferente esquema de jogo (4-2-4) e provar que o ouro olímpico de 1952 não havia sido mera coincidência. A Hungria era mesmo uma seleção imortal. E sensacional. É hora de relembrar a partida mais importante de toda a história do futebol húngaro. E que ajudou a modernizar de vez o futebol do pós-guerra.

Pré-jogo

Os húngaros se aquecendo: enquanto o adversário apenas olhava, os magiares já ficavam no jeito para marcar gols logo nos primeiros 20 minutos de jogo.

Os húngaros se aquecendo: enquanto o adversário apenas olhava, os magiares já ficavam no jeito para marcar gols logo nos primeiros 20 minutos de jogo.

Em tempos de WM, bolas pesadas e pensamentos em gols, gols e gols, a Hungria revolucionou tudo o que se sabia sobre futebol e táticas naquele começo de década de 50 graças ao técnico Gusztáv Sebes. O húngaro percebeu que o WM provocava espelhos nos confrontos em que duas equipes o utilizavam e decidiu inverter o M e criar o WW, que viraria o famoso 4-2-4, com o recuo de dois jogadores do meio de campo para a defesa e a presença de um falso camisa 9 na articulação das jogadas – no caso da Hungria, o craque cerebral Hidegkuti. O esquema primava pela movimentação, toque de bola e o fator surpresa no ataque, pois um meia-atacante pelo meio (que os zagueiros achavam ser um centroavante) atraia a marcação adversária, deixando os dois atacantes livres para fazer a festa. Com a base feita, a Hungria começou o seu show ao realizar ótimas partidas e a mostrar um profissionalismo tremendo. Sem a bola, o time recuava e marcava perfeitamente os adversários com uma bem montada e inédita linha de quatro zagueiros. Com ela, o ataque era puramente artístico, incisivo e devastador com pelo menos dois gols marcados nos primeiros vinte minutos de jogo, consequência do excelente preparo físico do time e do aquecimento realizado minutos antes dos jogos. Enquanto a Hungria entrava já quente e pronta para causar estragos, os rivais começavam os jogos frios e pensando no que fazer. Até esse pensamento virar ação, a Hungria quase sempre já vencia por 2, 3 ou 4 a 0…

Tanta qualidade fez com que os húngaros conquistassem o ouro olímpico nos Jogos de Helsinque, em 1952, com cinco vitórias em cinco jogos, 20 gols marcados e apenas dois sofridos. A fama dos “Mágicos Magiares” cresceu de um jeito que até mesmo os isolados ingleses, sempre avessos ao que acontecia fora de sua ilha, souberam das vitórias e façanhas dos húngaros. Com isso, a federação de futebol inglesa convidou a seleção magiar para uma partida amistosa em 1953, mais precisamente no dia 25 de novembro, em Wembley. Seria o confronto entre “a melhor seleção de todas” (como os ingleses modestamente se proclamavam) contra a “melhor seleção do momento”. O duelo gerou muita expectativa na imprensa britânica que tratou de apelidar a partida de “The Match of the Century” (O jogo do século).

As equipes entrando em Wembley…

As equipes entrando em Wembley…

… E os capitães Billy Wright (Inglaterra) e Puskás (Hungria).

… E os capitães Billy Wright (Inglaterra) e Puskás (Hungria).

No dia do jogo, os húngaros não escondiam o nervosismo diante daquele mundo de gente (100 mil pessoas) no mítico Wembley e por ter que enfrentar a Inglaterra, que tinha bons jogadores como Alf Ramsey, Billy Wright, Stan Mortensen e o veterano craque Stanley Matthews. Antes da partida, o capitão inglês Billy Wright percebeu que os atletas magiares calçavam chuteiras leves e bem mais simples que as dos ingleses, mais pesadas e robustas. O jogador virou para o companheiro Mortensen e comentou: “eles não têm nem o equipamento adequado…”. Mal sabia o capitão que aquelas chuteiras seriam apenas alguns dos artifícios para o show húngaro daquele dia.

O ingresso para o “jogo do século”.

O ingresso para o “jogo do século”.

Primeiro tempo – O choque

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Quando a Hungria rolou a bola para o início do jogo, a Inglaterra sofreu com apenas alguns segundos o primeiro golpe dos magiares. Bozsik recebeu de Zakarias e tocou para Hidegkuti, o homem que seria o nome do jogo em Wembley. O camisa 9 passou fácil por Johnston e mandou um chutaço de perna direita no canto do goleiro Merrick: 1 a 0. Era apenas o prenúncio do que estava por vir. Com muita movimentação e um esquema totalmente novo, a Hungria dominava as ações e deixava o defensor Johnstone completamente louco, afinal, ele não sabia se marcava Hidegkuti, camisa 9, ou se ficava atrás contendo Puskás e Kocsis. Hidegkuti era para ficar na área, como legítimo centroavante, mas ele recuava e jogava como um meia clássico. Loucura? Não para aquela Hungria. Aos 11´, o juiz Leo Horn anulou um gol legítimo do camisa 9 magiar e deu uma forcinha para que os donos da casa chegassem ao empate aos 13´, com Sewell. Mesmo assim, a Hungria era só ataque e comandava as ações com muita movimentação e atordoando os defensores ingleses. Aos 19´, Puskás é derrubado na área, o árbitro não marca o pênalti, mas Hidegkuti aproveita a sobra para marcar o segundo gol: 2 a 1. A Inglaterra parecia que jogava fora de casa tamanha tranquilidade e imponência dos húngaros em campo. Apenas quatro minutos depois, Czibor, de surpresa na ponta direita, tocou com toda liberdade para a entrada da área. A bola encontrou Puskás e o craque da camisa 10 anteviu a chegada do capitão inglês Billy Wright (aquele que zombou das “chuteiras leves” húngaras). Com sua habitual genialidade, o “major galopante” aplicou um corte seco e humilhante no rival, que ficou esparramado no gramado sem que sua chuteira pesada pudesse lhe ajudar a permanecer em pé. Com um gol inteiro a seu dispor, Puskás emendou um chute preciso de perna esquerda sem chances para o goleiro: 3 a 1. Que golaço!

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Os ingleses estavam tão atordoados com a derrota que, minutos depois, nem barreira fizeram para uma cobrança de falta de Bozsik, que chutou forte e viu a bola ter sua trajetória desviada por Puskás: 4 a 1. Já com uma goleada histórica no placar, a Hungria tirou o pé e deixou os ingleses respirarem um pouco. No final da primeira etapa, Mortensen ainda descontou para 2 a 4, mas o gol que poderia servir de esperança inglesa no segundo tempo não significava nada. A diferença entre as equipes era gritante. A Hungria jogava um futebol moderno, insinuante, inteligente. A Inglaterra era retrógrada, velha, parada no tempo. Não conseguia articular uma boa jogada contra o gol húngaro. E tinha dois gols no placar mais por desleixo do rival do que por méritos próprios. Afinal, com o tanto de chances que a Hungria teve, ela poderia ter vencido os primeiros 45 minutos por mais de 10 gols sem exagero algum.

Os times em campo: jogando de maneira arcaica, a Inglaterra foi presa fácil para a Hungria, que usou sua velocidade e a presença do “falso 9” Hidegkuti para destroçar a invencibilidade dos anfitriões em Wembley.

Os times em campo: jogando de maneira arcaica, a Inglaterra foi presa fácil para a Hungria, que usou sua velocidade e a presença do “falso 9” Hidegkuti para destroçar a invencibilidade dos anfitriões em Wembley.

Segundo tempo – Os aplausos

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Bem mais tranquila e convicta da vitória, a Hungria começou o segundo tempo disposta a encerrar seu show com categoria e segurança. Aos cinco minutos, falta cobrada por Hidegkuti, Kocsis manda de cabeça na trave e no rebote Bozsik chuta cruzado, no canto de Merrick: 5 a 2. Ainda insaciáveis, os húngaros decidem encerrar a conta de gols com outra obra-prima. Depois de gastar a bola por mais de 20 segundos com muita precisão, os magiares constroem uma jogada de arte da direita, com Czibor e Buzánsky. A bola é alçada para Budai, que toca de cabeça para Kocsis e este, também de cabeça, deixa com Puskás na entrada da área. O camisa 10 domina com sua indefectível perna esquerda e lança a bola pelo alto com uma categoria impressionante para Hidegkuti (que já havia deixado seu marcador, Johnstone, totalmente sem ação), que emenda um sem-pulo sensacional para fazer 6 a 2 e o seu terceiro gol no jogo. Wembley aplaude sem vergonha e sem ressentimento o espetáculo magiar. Aos 11´, o goleiro Grosics (que seria substituído tempo depois) cometeu um pênalti bobo em cima de Mortensen. Na cobrança, Alf Ramsey bateu e fechou o placar: 3 a 6. Depois do gol inglês, a Hungria continuou a pressionar os donos da casa, mas parecia que os deuses da bola já estavam satisfeitos com o placar e com a humilhação pela qual passava a Inglaterra. Ao apito final, o placar era apenas um detalhe do que fora o massacre húngaro: 35 chutes a gol dos magiares contra 5 (isso mesmo, apenas CINCO!) dos ingleses, além de jogadas plásticas, velocidade e toques inteligentes.

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O estádio de Wembley aplaudiu intensamente e efusivamente os jogadores húngaros depois do baile protagonizado naquele dia 25 de novembro de 1953. Se antes do jogo os magiares estavam nervosos e tensos, após tudo aquilo eles eram alegria pura e tinham a maior sensação que um atleta de futebol poderia ter: o reconhecimento de seu trabalho refletido em aplausos calorosos de 100 mil pessoas que de rivais se transformaram em fãs. Se os ingleses ainda se achavam os reis do futebol e viam os adversários como meros pupilos, eles tiveram que rever os conceitos após aquele jogo. Os “masters” da bola vestiam o vermelho e branco da Hungria. E os pupilos eram os soberbos ingleses, que levaram uma goleada humilhante em sua própria casa num jogo eterno.

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Pós-jogo: o que aconteceu depois?

Inglaterra: a derrota em casa deixou marcas profundas nos ingleses e serviu como uma “chacoalhada” em toda a estrutura do futebol no país. Os jogadores da seleção admitiram que não prestaram atenção no poder de fogo da Hungria e viram que seu estilo de jogo estava totalmente ultrapassado. Em maio de 1954, os ingleses quiseram uma revanche e toparam jogar na casa húngara, em Budapeste. Lá, eles voltaram a sofrer e perderam por 7 a 1, até hoje a maior goleada sofrida da história do English Team. Como lição, os ingleses trataram de se modernizar, a começar pelo uniforme, que passou a ser mais justo e com gola em “v” (igual ao da Hungria). As táticas e métodos de treinamento viraram objetos de estudo para os treinadores, jogadores que não mostravam progresso ou que já tinham idade avançada eram sacados da seleção (caso de seis integrantes da derrota de 1953: Eckersley, Ramsey, Robb, Johnston, Mortensen e Taylor) e o futebol internacional deixou de ser algo sem importância para virar o grande centro das atenções dos ingleses, que disputariam com muito mais vontade a Copa do Mundo, solenemente desprezada por eles até 1950. O que uma derrota não faz…

Hungria: o canto do cisne da mágica seleção húngara foi aquela goleada em Wembley. Mas os magiares ainda teriam mais momentos de brilho, a começar pela nova goleada pra cima da Inglaterra, em Budapeste, no Nepstadion tomado por 92 mil pessoas: 7 a 1, com dois gols de Puskás, dois de Kocsis, um de Hidegkuti, um de Tóth e um de Lantos. Após mais um resultado marcante, os magiares viajaram até a Suíça em busca de um praticamente ganho título mundial. Porém, mesmo depois de atropelar Coreia do Sul (9 a 0), Alemanha (8 a 3), Brasil (4 a 2) e Uruguai (4 a 2), os húngaros caíram diante da Alemanha na decisão de Berna e perderam por 3 a 2, de virada. A derrota simbolizou não só a perda da Copa do Mundo, mas também o fim de uma era de ouro do futebol húngaro, que viveu momentos conturbados por causa de guerras e jamais voltou a ser o que era. Mesmo assim, pouquíssimas seleções conseguiram os feitos daquele esquadrão, muito menos enfiar seis gols nos senhores do futebol em pleno templo de Wembley. Uma façanha eterna. Como foram aqueles 6 a 3 de 25 de novembro de 1953.

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Extras:

Veja abaixo o belíssimo gol que fechou a goleada húngara.

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