Futebol no Planeta

Relembre o super Guarani de 1978

Há exatos 40 anos, uma das maiores façanhas da história do Campeonato Brasileiro se concretizou no Brinco de Ouro da Princesa. Afinal, a taça nas mãos do Guarani não consagrava apenas o primeiro clube do interior a ser campeão nacional. Os contornos épicos sobre aquela conquista iam muito além, por todo o descrédito que envolvia o time e também por todas as marcas que ele deixou para sempre. Foi o Bugre que derrubou gigantes. Foi o Bugre que apresentou craques atemporais. Foi o Bugre que exaltou um dos melhores técnicos brasileiros de sua época. Que, sobretudo, provocou o êxtase inigualável a uma torcida, se vendo maior do que nunca naquelas arquibancadas que tanto ama. Nestas últimas quatro décadas, os campineiros enfrentaram diversas dificuldades. Viram a instituição atravessar penúrias e amargar sérios riscos sobre o seu patrimônio. Mas, no fim das contas, o grande legado segue preservado, independentemente das condições do Guarani: a estimada memória do Brasileirão de 1978.

Para chegar ao título contra o Palmeiras, no entanto, o Bugre atravessou um longo caminho nos meses anteriores. Basta lembrar as dúvidas que pairavam sobre o clube em meados de 1977. A equipe não durou muito no Brasileirão daquele ano, eliminada na segunda fase, em grupo cascudo que ainda contava com Atlético Mineiro, Santa Cruz e Grêmio. Já no Paulistão, a campanha acumulada levou os bugrinos à fase final da competição, mas como meros coadjuvantes, terminando na última colocação de um dos quadrangulares semifinais. A perspectiva do lado verde de Campinas não era das melhores, considerando que a Ponte Preta chegou à final do estadual, na histórica partida que encerrou o jejum de títulos do Corinthians.

Enquanto os jogadores mais aclamados na cidade se concentravam no Moisés Lucarelli, o Brinco de Ouro perdeu uma de suas referências em janeiro. Amaral era visto como um dos melhores zagueiros do futebol brasileiro. Não à toa, ganhou as primeiras convocações à Seleção em 1975, participando da Copa América sob as ordens de Osvaldo Brandão. E mesmo depois da chegada de Cláudio Coutinho, o beque continuou sendo utilizado frequentemente no miolo da zaga, firmando parceria principalmente com Luis Pereira. Contudo, o ídolo acabou vendido ao Corinthians. Saía para que os campineiros conseguissem estabilizar suas finanças, em um momento delicado nos bastidores.

Ricardo Chuffi havia assumido a presidência do Guarani naquele momento. Diante das vacas magras, precisava manter os pés no chão. E uma de suas apostas veio para o banco de reservas, logo naquelas primeiras semanas, tentando superar a sensação ruim deixada pelas campanhas modestas. Confiava em Carlos Alberto Silva, mineiro de 38 anos formado em educação física pela UFMG, que não havia jogado profissionalmente, mas tinha rodagem no comando de clubes do interior. Foram dois anos e meio na Caldense, até que o “professor” chamasse a atenção no Brinco de Ouro. Os bugrinos queriam um comandante que pudesse valorizar mais a base. Acreditaram que aquele homem da nova geração seria o nome certo para conduzir a reconstrução de uma equipe sem tantas expectativas. Não poderiam ser mais precisos na escolha, ganhando ambição a partir da mentalidade do treinador.

Logo no primeiro dia no Brinco de Ouro, Carlos Alberto Silva passou pela imprensa sem o reconhecerem. Os jornais criticaram a escolha, com periódicos de São Paulo assinalando que os campineiros levaram um comandante que “ninguém conhecia”. Logo depois, o novo técnico saiu para observar os juniores. Promoveu cinco garotos de uma vez só, entre eles Careca, que já havia estreado anteriormente, embora não tivesse sido efetivado. E seria dentro das possibilidades modestas que o Guarani pensava nos desafios que viriam em 1978. Outra referência ao lado do treinador era Hélio Maffia. O preparador físico, que já havia trabalhado em grandes de São Paulo e até mesmo na seleção brasileira, teve muita valia no aperfeiçoamento de uma equipe que unia qualidade técnica e ótimo preparo físico.

De fevereiro a março, ao longo de um mês, o Guarani disputou sete amistosos. Manteve a invencibilidade e conquistou resultados interessantes, como a vitória sobre o Santos ou o empate com a Portuguesa – em que foram até mesmo criticados pelo treinador adversário, por conta do apetite demonstrado em duelo que não valia tanto assim. De qualquer forma, o trabalho dos alviverdes precisaria se alongar. O intuito era mesclar as contratações pontuais com os jogadores que permaneciam no elenco e os promovidos da base. Dificuldades que indicavam objetivos modestos quando o Brasileirão começou, no final de março.

“Guarani quer ser apenas competitivo”, avaliava o guia preparado pela revista Placar, na época. Segundo a reportagem assinada por Sérgio Martins, Carlos Alberto Silva ainda pedia quatro reforços à diretoria: dois pontas, um centroavante e um lateral. Os dirigentes, por outro lado, reconheciam a necessidade de encorpar o elenco, embora afirmassem que o orçamento era baixo. Naquele início, o grupo contava com apenas 15 atletas profissionais e o restante do plantel precisava ser completado por 10 garotos saídos da base.

“O Guarani vai ser um time altamente competitivo, que venderá caro qualquer derrota. Estamos treinando cinco maneiras de jogar: marcação por pressão, por meia-pressão, por zona, marcação mista, marcação à bola”, dizia Carlos Alberto Silva à matéria. A Placar, em compensação, ponderava analisando que “na verdade, o Guarani é um time em busca de definições, tanto em termos de elenco quanto de estruturação tática”, garantindo que os estilos de jogo dos reservas permitiam poucas opções e que dificilmente a equipe não giraria ao redor de Zenon, “a estrela solitária”.

De fato, Zenon já era visto como um craque em ascensão. Após despontar no Avaí, o meia desembarcou em Campinas aos 21 anos, em 1976. Tinha o seu talento reconhecido pela visão de jogo privilegiada, pelos lançamentos precisos e também pela qualidade nas definições. No entanto, a falta de experiência da base titular do Guarani pesava contra e as avaliações feitas pela imprensa da época não poupavam tinta. Nove dos 11 titulares tinham 26 anos ou menos. Enquanto isso, dois solitários trintões possuíam a missão de oferecer mais tarimba.

Um deles era o goleiro Neneca. Nascido em Londrina, o camisa 1 havia passado por equipes de vários estados e se destacara no Náutico. Sustentava recordes de invencibilidade e tinha títulos no currículo, algo fundamental em sua contratação em 1976. Já no meio-campo, a referência era Zé Carlos. O volante havia sido uma das novidades do clube no fim de 1977, transformado por Carlos Alberto Silva logo em um dos seus pilares. Aos 33 anos, carregava uma idolatria respeitável com a camisa do Cruzeiro, recordista em jogos pelo clube. Fez parte das grandes conquistas da Raposa a partir da segunda metade dos anos 1960. Entretanto, sem espaço como titular celeste, seria negociado rumo ao Brinco de Ouro. O que parecia o fim de sua carreira, por fim, acabou se provando uma nova guinada. Era um veterano com gosto de fazer história. Se já não tinha o mesmo fôlego de outros tempos da carreira, continuava sendo um abnegado na faixa central, excelente para realizar a ligação entre defesa e ataque. Além disso, servia de exemplo pela maneira como trabalhava sua técnica, ótimo nos fundamentos.

Zenon, Neneca e Zé Carlos eram os únicos que chegaram ao Guarani vindo de clubes de outros estados. O restante dos contratados eram todos de São Paulo, sobretudo do interior. Dono da braçadeira de capitão, o zagueiro Édson havia sido o primeiro a aportar, em 1975. Jogava no São Bento e, depois de um período por empréstimo, foi contratado em definitivo pelos bugrinos. Servia de grande liderança ao sistema defensivo, bom no jogo aéreo e arma também na saída de bola. Seu companheiro no setor, Gomes, chegara do Saad dois anos depois. Dono de capacidade física e bom senso de cobertura, firmou-se ainda mais com a saída de Amaral. Já em 1978, durante as primeiras rodadas do Brasileirão, Capitão e Bozó se tornaram os pontas pedidos por Carlos Alberto Silva. O primeiro vinha do XV de Piracicaba, após passagens por Santos e Vasco, se caracterizando pelo excelente preparo físico e pelo estilo de jogo voluntarioso. Bozó, por sua vez, era cria do São Bento, com passado em Atlético Mineiro e Santos. Assumiu a posição no lugar do lesionado Macedo e, famoso por sua folclórica personalidade, contribuía tanto com sua determinação no ataque quanto pela recomposição na defesa.

De resto, a espinha dorsal daquele Guarani era toda formada por jogadores da base. Na lateral direita, aos 23 anos, Mauro combinava a qualidade na marcação com os chutes perigosos. Do outro lado, era acompanhado pelo possante Miranda, de 21 anos, improvisado por Carlos Alberto Silva na função e fundamental por seus frequentes gols. Renato “Pé Murcho” havia iniciado a campanha como ponta, mas acabara recuado ao meio-campo, compondo a célebre trinca com Zé Carlos e Zenon. Dono de dribles desconcertantes e um refinamento técnico muito acima do comum, ajudava demais por suas penetrações e suas assistências. Já na frente, a solução era Careca, que tinha 17 anos na época. Apesar do desejo do treinador em contar com um centroavante, o garoto mostrou que não era preciso gastar dinheiro para encontrá-lo. Tomou conta da posição e virou a sensação da campanha, por seus gols e o estilo explosivo nos arredores da área. Combinação perfeita à glória, mas que ainda demoraria um tempo a dar resultados.

Afinal, não foi logo de cara que o 11 inicial se encaixou. O Guarani que estreou contra o Vasco ainda contou com Alexandre na lateral, Manguinha como volante e Gersinho na ponta. Um início para frustrar os 11,5 mil pagantes no Brinco de Ouro. Logo de cara, o Vasco venceu por 3 a 1, com três gols de Roberto Dinamite no primeiro tempo. Os bugrinos recobraram o moral na segunda partida, que contou com a estreia de Capitão. De virada, superaram o Bahia por 2 a 1. Depois, bateram o CSA, até emendarem uma sequência de três empates. Desta maneira, a afirmação no Grupo D da primeira fase dependeu de uma sequência pródiga de três vitórias no final de abril.

Primeiro, goleada por 5 a 0 sobre o Confiança, com dois de Miranda. Depois, o Dérbi Campineiro contra a Ponte Preta de Dicá e outros grandes nomes. Uma tarde de Careca, que só entrou em campo porque Adriano, o titular até então, estava gripado. O prodígio, que anotara o primeiro gol oficial na rodada anterior, abriu o placar aos 38 do segundo tempo. Já aos 15 da etapa complementar, repetiu a dose, antes que Lúcio descontasse à Macaca. O triunfo por 2 a 1 deixava o Bugre na vice-liderança do grupo. Carlos Alberto Silva deixou o campo às lágrimas, dizendo que era a “maior vitória da minha vida”. Já a Folha de S. Paulo avaliava: “Careca fez uma partida brilhante e somente foi contido pelas faltas dos zagueiros da Ponte, sobretudo Juninho”. Para complementar a boa fase, no compromisso seguinte, os alviverdes aplicaram impiedosos 7 a 0 sobre o Itabuna em Campinas, com três tentos de Renato e mais dois de Careca. A derrota para o Volta Redonda e o empate com o Botafogo, ambos no Rio de Janeiro, não impediram os paulistas de avançarem. Ficaram na quinta colocação do Grupo D, atrás de Bahia e Ponte Preta apenas pelos critérios de desempate.

A segunda fase seguia relativamente tranquila para o Guarani, no Grupo J. Por mais que enfrentasse pesos pesados em sua chave, como Vasco e São Paulo, seis times avançariam entre os nove postulantes à etapa seguinte da competição. Esta fase do Brasileirão, aliás, se desdobrou entre o final de maio e o final de junho, concomitantemente com a Copa do Mundo, que deixava os principais clubes desfalcados dos jogadores convocados à seleção brasileira. Apesar de alguns resultados ruins (incluindo uma dolorosa goleada do Remo por 5 a 1, com cinco tentos de Bira, que soou o alarme aos paulistas), os bugrinos conseguiram avançar com as vitórias conquistadas sobre Brasília, Caxias e Villa Nova. Seguiram para a terceira fase na quarta colocação da chave. A partir de então, o time pouco experiente, mas com potencial enorme, precisaria começar a falar grosso contra os grandes. Foi o que aconteceu.

No Grupo Q, apenas os dois primeiros colocados se garantiriam nas quartas de final, entre oito participantes por chave. Logo na primeira rodada, o Guarani pegaria o Internacional, bicampeão nacional pouco antes e que contava com um elenco poderosíssimo, estrelado por Paulo Roberto Falcão. Havia um certo ar de desdém na imprensa gaúcha e, durante um debate na televisão, o comentarista Lauro Quadros ironizou o ataque campineiro. Afirmou que Capitão, Careca e Bozó formavam um “ataque de risos”, por conta de seus nomes. Um deboche que subiu à cabeça dos jogadores bugrinos. Antes da partida no Beira-Rio, já nos vestiários, Carlos Alberto Silva mostrou o vídeo para aumentar a sede de seus comandados e eles fizeram um pacto de que não perderiam mais no Brasileirão. Algo que começou a se cumprir de maneira espetacular já naquela tarde de 2 de julho.

Foi um baile sobre o Inter de Cláudio Duarte, que tinha Falcão, Batista e Caçapava em seu meio-campo. O Guarani de Carlos Alberto Silva precisou de quatro minutos para abrir o placar. Uma troca de passes botou os colorados na roda e Renato driblou o goleiro Gasperin para estufar as redes. Antes do intervalo, caberia a Bozó ampliar. Já na segunda etapa, o golpe de misericórdia veio com um golaço de Zenon. O meia partiu do campo de defesa e fez que armaria o lançamento. Aproveitou a linha de impedimento feita erroneamente pela defesa para passar entre vários adversários e, com o caminho aberto, só tocou por baixo do arqueiro. Os bugrinos garantem ainda hoje que, não fosse a chuva que deixou o campo encharcado, dificultando o toque de bola, o “ataque de circo” poderia ter aplicado uma goleada maior que aqueles 3 a 0 históricos.

Naquele momento, o Guarani se tornou um time respeitado. E seguiu impondo respeito a cada partida do Grupo Q. Depois do empate na visita ao Goiás, os bugrinos derrotaram o Santos no Brinco de Ouro. Mauro abriu o placar, antes que Juary empatasse. No segundo tempo, contudo, preponderou a categoria de Zenon. Um de seus gols de falta valeu o triunfo por 2 a 1. Depois, novas vitórias diante de Botafogo da Paraíba, Goytacaz, Botafogo de Ribeirão Preto e Londrina. A equipe de Carlos Alberto Silva não apenas se classificou, como ainda terminou na liderança da chave, dois pontos à frente do Internacional.

Nas quartas de final, o Guarani não tomou conhecimento do Sport. A vitória por 2 a 0 na Ilha do Retiro, com gols de Zenon e Capitão, já havia sido um ótimo resultado. Três dias depois, no Brinco de Ouro, goleada por 4 a 0. Capitão fez mais dois, enquanto Miranda e Renato também deixaram os seus. Tudo para o reencontro com o Vasco, o algoz na estreia, agora pelas semifinais do Brasileirão. Os cruzmaltinos, aliás, também contavam com um esquadrão. Campeões do Carioca em 1977, chegaram a passar um turno inteiro sem sofrer gols naquela edição do estadual.  A campanha teve 25 vitórias e apenas uma derrota em 29 partidas, com 69 tentos marcados e cinco sofridos. Treinado por Orlando Fantoni, o time mantinha a base no Brasileiro de 1978 e contava com destaques do calibre de Orlando Lelé, Marco Antônio, Paulinho, Zanatta, Guina e Dirceu, além de Roberto Dinamite.

Muito havia acontecido naqueles pouco mais de quatro meses, entre o primeiro e o segundo encontro com o Vasco. De candidato a uma campanha modesta, o Guarani se tornara a grande sensação da competição nacional. A equipe sustentava uma invencibilidade de 11 jogos, sendo sete vitórias consecutivas. Marcas que se ampliariam contra os cruzmaltinos. A ida aconteceu no Brinco de Ouro. Um gol contra de Orlando Lelé facilitou as coisas no primeiro tempo. Já na segunda etapa, Zenon deu um excelente lançamento a Capitão, se projetando na ponta direita. O atacante pegou a defesa adversária totalmente aberta e cruzou para Renato, que não acertou em cheio na bola, mas venceu o goleiro Mazarópi. O triunfo por 2 a 0 colocava pressão sobre os cariocas no reencontro, marcado para o Maracanã.

Ao todo, 101 mil pagantes se espremeram nas arquibancadas do Maraca na tarde de domingo, 6 de agosto. Viraram testemunhas da grandiosidade do Guarani de Carlos Alberto Silva. Zenon estava especialmente inspirado. Numa trama fabulosa que contou com a participação de Renato e Capitão, Careca ajeitou e o maestro soltou a bomba, no ângulo de Mazarópi. Pois tinha mais. No segundo tempo, uma falta na entrada da área se transformou em cobrança perfeita do craque, outra vez acertando a gaveta. O Vasco ainda acreditou e pressionou. Dirceu descontou nos minutos finais, encerrando uma invencibilidade de 778 minutos de Neneca, que não sofrera gols nas sete partidas anteriores e vivera algumas exibições de gala no período. Ainda assim, a vitória por 2 a 1 punha o Bugre na final e ainda assegurava a vaga na Libertadores de 1979.

Na decisão, por fim, outro desafio gigantesco. O Palmeiras de Jorge Vieira vivia os primeiros anos de seu jejum, mas possuía um time respeitabilíssimo. Não à toa, eram vários ídolos alviverdes e jogadores de seleção naquele grupo, encabeçado por Leão, Marinho Peres, Jorge Mendonça e Nei. Além disso, existia muita força nos bastidores, com a diretoria campineira precisando bater o pé para barrar as propostas da federação paulista, que desejava dois árbitros do estado e duas partidas na capital. O primeiro jogo, de qualquer maneira, teve mando de campo palestrino. Mais de 104 mil pessoas se aglomeraram no Morumbi. No meio da multidão, era estimada uma massa de 25 mil bugrinos que pegaram a estrada até a capital.

O Guarani precisou lidar com as dificuldades nos 45 minutos iniciais do primeiro jogo decisivo. O Palmeiras acertou uma bola no travessão, enquanto Mauro e Gomes salvaram lances em cima da linha. Já do outro lado, Leão também faria grande defesa em tentativa de Zenon. O destempero do goleiro de três Copas do Mundo até ali, todavia, custaria caro aos palestrinos. Na etapa complementar, Careca usou de sua malícia. Provocou o craque de luvas, que caiu na pilha e se descontrolou. Com a bola nas mãos, o arqueiro acertou o centroavante por trás. Expulsão e pênalti para o Bugre. O cartão vermelho gerou uma enorme confusão, com invasão até de policiais em campo, demorando alguns minutos para que os ânimos fossem acalmados. O atacante Escurinho precisou ser improvisado na meta, como o limite de substituições já tinha sido atingido pelos paulistanos. Na cobrança, Zenon anotou o gol que garantiu a vitória por 1 a 0 e abriu o caminho para a façanha no Brinco de Ouro.

Na segunda partida, o Brinco de Ouro se preparou para uma noite especial. Mais de 28 mil torcedores estiveram nas arquibancadas em Campinas. O Guarani precisava lidar com um problema considerável, diante da ausência de Zenon, que foi suspenso pelo número de cartões amarelos. O novato Manguinha, outra cria da base, o substituiu. De resto, porém, o Bugre vinha com força máxima. Neneca no gol, Mauro e Miranda nas laterais, Gomes e Edson na zaga, Zé Carlos e Renato no meio, Capitão e Bozó nas pontas. Além de um inspirado Careca, pronto para se sacramentar como uma estrela naquela tarde de 13 de agosto de 1978.

O primeiro tempo no Brinco de Ouro foi parelho. As duas equipes criaram chances de gol, com Neneca e Gilmar trabalhando bastante. Além disso, na melhor oportunidade, Jorge Mendonça errou o alvo. Um desperdício que custaria caro minutos depois, aos 36, quando Careca anotou o gol do título. Neneca chutou a bola ao campo de ataque e, após um desvio no meio do caminho, Beto Fuscão ia ficando com ela. Careca pressionou e desarmou o zagueiro palmeirense. Bozó chutou, Gilmar defendeu e, no rebote, o garoto iluminado balançou as redes. Festa enorme dos bugrinos.

Precisando de três tentos, o Palmeiras quase empatou antes do intervalo. Neneca fez grande defesa em um dos lances, enquanto Alfredo desviou para fora já na pequena área em outro. Pois na segunda etapa, o Guarani reafirmou a sua superioridade através dos contra-ataques. Careca estava particularmente infernal. Chegou a dar um chapéu no círculo central, antes de lançamento primoroso para Capitão, que quase rendeu o segundo gol. E ele só não balançou as redes novamente porque, após passar por Gilmar, resolveu marcar de calcanhar na pequena área e viu a bola salva na hora exata. O goleiro palestrino ainda faria outras duas boas intervenções na sequência da partida, enquanto Neneca manteria sua meta invicta com outro milagre. O suficiente para que o 1 a 0 no placar terminasse de consagrar o Guarani. Ao final de 11 vitórias consecutivas, a taça ia para o interior pela primeira vez.

Em sua coluna no Jornal do Brasil do dia seguinte, João Saldanha exaltava os campeões: “No Guarani, o bom, todo mundo. Mas Mauro, Zé Carlos, Miranda, Careca e Renato se sobressaíram. Notável foi o permanente espírito ofensivo do time de Campinas. Nos tempos atuais, edificante e emocionante. Como jogam bem os cobras brasileiros quando não aparece a brutalidade no campo de jogo! Grande jogo, grande árbitro. Guarani, o legítimo campeão”.

Carlos Alberto Silva, emocionado, dedicava o título ao pai, que morrera 15 dias antes. Já ao apito final, uma enorme invasão da torcida tomou o campo do Brinco de Ouro. Na porta do vestiário, o capitão Édson ergueu a taça. Os jogadores ganharam uma faixa nos vestiários, que Zenon sequer pegou, porque tinha aula na faculdade. Sem desfile em carro aberto que pudesse reconhecer os heróis nas ruas de Campinas, eles confraternizaram nos tradicionais churrascos que aconteciam na casa de Zé Carlos. O volante, fundamental pela tranquilidade que transmitia ao time, teve atuações monstruosas na fase final e servia como um líder àquele grupo unido.

Neneca, Mauro, Gomes, Édson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó. A escalação que o bugrino declama de cor permanece. Era um time baseado no 4-3-3 comum na época, mas que exibia enorme consistência e também liberdade. Tinha uma defesa difícil de ser superada, mantinha trabalho coletivo consciente e conseguia ser mortal no ataque. Apesar dos ótimos números defensivos, era um grupo que jogava para frente, com sangue nos olhos e agressividade na hora de recuperar a bola. Os laterais e os pontas eram bastante incisivos, se combinando bem. O meio-campo possuía uma capacidade técnica muito acima do corriqueiro e contribuía com vários gols, a partir dos lançamentos longos de Zé Carlos e Zenon para Renato. E Careca, a cereja do bolo, apareceu na hora certa. Foram 13 gols ao garoto, artilheiro do time ao lado de Zenon, enquanto Renato, o único presente nos 32 jogos, anotou 10 vezes. Missão cumprida de maneira impecável por Carlos Alberto Silva, que transformou um clube descrente em seu futuro em campeão brasileiro incontestável, como ninguém poderia imaginar oito meses antes.

“Diziam aqui que, quando o Guarani levava um gol primeiro, perdia a partida. Diziam também que o Guarani perdia jogos importantes na véspera e que o time era composto por 11 camisas ambulantes. Comecei o meu trabalho em cima disso. O plantel era bom e eu sentia que podia ir muito além, mas encontrei uma apatia muito grande quando cheguei. Para mim, um time que pretende ser campeão tem que jogar cada partida como se fosse uma decisão, correr até o juiz apitar o fim do jogo. E isso foi a primeira coisa que fiz ver aos jogadores”, avaliava Carlos Alberto Silva, à Placar, às vésperas da finalíssima.

“Essa descrença geral no Guarani foi boa para a gente. Ninguém se incomodava muito com o nosso time e isso foi dando tempo para que ajustássemos as peças. Acredito que o Guarani esteja jogando de 70% a 80% do que pode. Uma porcentagem muito boa, porque você não consegue nunca um time 100%. Minha preocupação é jogar ofensivamente. Acredito que esse é o melhor caminho para qualquer equipe. Uma vez, ouvi o Éder Jofre falar que sempre ganhou por não dar chance aos adversários de atacá-lo. Ouvi isso e guardei. Claro, se você está atacando, o adversário vai estar defendendo”, complementava o treinador bugrino.

O Guarani não repetiu a conquista nos anos seguintes, mas seguiu fazendo campanhas dignas. Sempre entre os primeiros no Paulistão, chegaria ainda ao triangular semifinal da Libertadores de 1979. Após sobrar em uma chave que tinha equipes fortes de Palmeiras, Universitário e Alianza Lima, os campineiros só caíram diante do campeão Olimpia na etapa seguinte – mas ficando à frente do Palestino de Don Elias Figueroa. O tamanho daquele Bugre, de qualquer forma, se traduz ainda mais pelo que aconteceu depois. Por aquilo que ocorreria na sequência das carreiras de Careca, Renato ou Zenon. Pelos feitos que Carlos Alberto Silva acumulou. Pela grandeza eterna proclamada pela torcida, 40 anos depois da epopeia.

Abaixo, a página do Jornal do Brasil com o perfil dos campeões, cedida gentilmente pelo amigo Emmanuel do Valle:

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